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 A NATUREZA DEU O ALERTA EM 2024. DOIS ANOS DEPOIS, O QUE AMEAÇA ALVORADA JÁ NÃO É SÓ O SUPER EL NIÑO, E SIM A LENTIDÃO DO GOVERNO MARTELLO.

A NATUREZA DEU O ALERTA EM 2024. DOIS ANOS DEPOIS, O QUE AMEAÇA ALVORADA JÁ NÃO É SÓ O SUPER EL NIÑO, E SIM A LENTIDÃO DO GOVERNO MARTELLO.

Basta o tempo fechar em Alvorada para milhares de famílias começarem a fazer contas. Dá tempo de levantar os móveis? Dá tempo de tirar o carro? Dá tempo de salvar os documentos? Essa nunca deveria ser a preocupação de quem vai dormir em casa. Mas continua sendo a realidade de quem mora próximo ao Arroio Feijó e, desde as enchentes de 2024, também de famílias que jamais imaginaram perder tudo por causa da água.

A MAIOR TRAGÉDIA CLIMÁTICA DA HISTÓRIA DO ESTADO DEVERIA TER MUDADO AS PRIORIDADES DOS GOVERNOS. MAS NÃO MUDOU.

A enchente de 2024 deveria ter sido um divisor de águas. Depois de ver cidades destruídas, famílias desalojadas e milhares de pessoas perderem praticamente tudo, inclusive a vida, qualquer governo comprometido teria entendido que a prevenção deixou de ser opção. Passou a ser obrigação. Mas basta olhar para Alvorada para perceber que a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul não foi suficiente para acelerar aquilo que realmente importa.

Porque a chuva não espera edital. A água não respeita cronograma administrativo. E quem passou a madrugada levantando geladeira, carregando o desespero no peito e crianças no colo, tentando salvar móveis, eletrodomésticos, documentos e, muitas vezes, a própria vida, não pode ser obrigado a assistir, dois anos depois, ao mesmo discurso de sempre: “o projeto ainda está em análise”.

A população de Alvorada não precisa de mais imagens do prefeito e do governador usando colete laranja diante das câmeras, fazendo vídeos para as redes sociais ou concedendo entrevistas prometendo que “agora vai”. Quem perdeu tudo não quer marketing. Quer máquinas trabalhando, quer o dique saindo do papel e quer, principalmente, voltar a dormir sem transformar cada previsão de chuva em uma contagem regressiva para o próximo pesadelo.

DINHEIRO EXISTE. O QUE FALTA É TRATAR A VIDA DAS PESSOAS COMO PRIORIDADE.

O governador Eduardo Leite anunciou um plano bilionário para a reconstrução do Rio Grande do Sul. Somente o sistema de proteção do Arroio Feijó, que beneficiará Porto Alegre e Alvorada, prevê cerca de R$ 2,5 bilhões em investimentos entre diques, casas de bombas e bacias de amortecimento. O Governo Federal já garantiu recursos para as obras de proteção contra cheias e anunciou um fundo bilionário para viabilizar esses investimentos. Ou seja, dinheiro existe, e o projeto existe, mas o problema também existe.

O que continua faltando é ver essas obras acontecendo na velocidade que a população precisa.

Enquanto isso, milhares de famílias continuam fazendo aquilo que nenhum cidadão deveria fazer: dormir com medo da próxima chuva. Para quem perdeu tudo em 2024, pouco importa se o atraso está na revisão do projeto, na homologação ou em mais uma etapa burocrática. Quem perdeu a casa não quer justificativas. Quer proteção.

E, como se a demora do dique já não fosse grave o suficiente, a tentativa do governo Martello de levar adiante o leilão do Parque da Solidariedade acabou encontrando um freio na Justiça. Em decisão liminar, a Vara Regional do Meio Ambiente suspendeu a alienação dos imóveis localizados na área discutida até que a situação seja analisada com maior profundidade, reconhecendo que existem elementos suficientes para justificar uma intervenção preventiva diante dos riscos ambientais apontados.

Não estamos falando de um terreno vazio. Estamos falando de uma área que ajudou Alvorada quando ela mais precisou. A própria decisão destaca que o local possui indícios da existência de nascentes, banhados, áreas úmidas, corredor ecológico, integração com a bacia hidrográfica do Rio Gravataí e função de amortecimento das enchentes, além de reconhecer a ausência, até o momento, de estudos ambientais completos capazes de afastar esses riscos.

A PRÓXIMA CHUVA NÃO VAI ESPERAR A BUROCRACIA TERMINAR.

Quem perdeu tudo em uma enchente sabe que a água não leva apenas móveis. Leva documentos, fotografias, anos de trabalho, lembranças de família e a tranquilidade de olhar para uma previsão do tempo sem medo. É por isso que a prevenção não pode continuar sendo tratada como promessa de campanha ou pauta para vídeos nas redes sociais.

Quem levanta a bandeira de Deus, Pátria e Família deveria lembrar que proteger famílias não é fazer discurso. É impedir que pais e mães vejam a água invadir a própria casa. É evitar que crianças precisem sair às pressas no colo dos pais. É garantir que idosos não percam, em poucas horas, o patrimônio construído durante uma vida inteira. Defender a pátria também é cuidar das cidades que ela abriga. E cuidar de Alvorada, hoje, significa fazer o dique sair do papel e preservar o Parque da Solidariedade. Porque, quando a água sobe, o que salva uma família não é um slogan. É a responsabilidade de quem governa.

Em 2024, a natureza mostrou o tamanho do problema. Dois anos depois, a lentidão dos governos está mostrando o tamanho da omissão. Alvorada não precisa de mais promessas. Precisa de obras. Porque a próxima chuva não vai esperar que a política resolva fazer a sua parte. 

 

RODINEI ROSSETO
Presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Alvorada (SIMA)